I
O Teclas é um adolescente de 14 anos, bastante inteligente e distraído.
Só vivia para uma coisa – A Internet! Era tão absorto pela net, que passava o dia a navegar por todos os sites de música, MSN para conversar com os amigos. Contudo, era um bom estudante, com muito boas notas.
Chamavam-lhe Teclas por passar tanto tempo agarrado ao computador. O seu verdadeiro nome era José Pedro, mas a família e amigos tratavam-no por Zeca.
Mas vamos continuar a chamar-lhe Teclas.
Um dia, o Teclas andava muito bem a navegar no seu computador a fazer uma pesquisa na Internet. Era para um trabalho para a escola.
A dada altura da sua pesquisa, apareceu-lhe um sítio com imagens de selos. O Teclas sabia o que eram selos, pois lá em casa de vez em quando, lá se recebia uma carta selada, mas nunca se tinha debruçado sobre aquele tema.
Percorreu o sítio, e foi fazendo as suas descobertas. Viu que muitas pessoas colecionavam selos, e que a esse hobbie se chamava Filatelia. Ficou intrigado com a descoberta, mas continuou a sua pesquisa para o trabalho da escola.
Nesse dia à noite, depois do jantar, o Teclas fechou-se no seu quarto, como era hábito nos adolescentes da sua idade. Pegou no telemóvel e, como tinha SMS grátis tal como os seus amigos, começou a enviar mensagens ao seu grupo de amigos.
- Zeca! Vem ajudar a levantar a mesa e depois vai estudar! – Disse-lhe a Mãe.
Não se obteve resposta.
- Zeca! Vem ajudar a levantar a mesa e depois vai estudar! – Repetiu a Mãe.
O Teclas continuava sem responder.
A Mãe dirigiu-se ao quarto dele, abriu a porta, e lá estava o nosso Teclas de fones nos ouvidos a ouvir música e a enviar SMS!
- Zeca! Não me ouviste chamar?
- Hã?!
- Ó Zeca! Vai levantar a mesa e depois vai estudar! – Pediu a Mãe.
Contrariado, o Teclas, lá desligou a música, e de telemóvel na mão, lá veio fazer o que a mãe lhe tinha mandado.
No dia seguinte lá na escola onde andava, o Teclas contou aos seus amigos a descoberta que tinha feito no dia anterior, enquanto andava a pesquisar para o seu trabalho.
Os amigos e colegas riram a bom rir!
- Ó Teclas! Voltaste à pré-história? – Perguntou o Cebola.
Chamavam-lhe o Cebola, porque a sua cabeça parecia de facto uma cebola. E como estes miúdos não deixam escapar nada, o Miguel ficou alcunhado de Cebola.
Todos riam do pobre Teclas. Envergonhado, afastou-se e ficou sossegado num canto do recreio sózinho.
- Ainda te mudamos a alcunha. Em vez de Teclas, passamos a chamar-te Pré-Histórico! – Disse a Andreia.
Risada geral.
Mas como o Teclas não era rapaz de ficar amuado, pois tinha uma personalidade forte, deixou-os falar e, sozinho no seu canto disse para si:
“Ainda vou saber o que é a Filatelia e fazer ver a esta gente que são uns incultos.”
Assim pensou, assim o fez!
Quando as aulas acabaram, correu para casa. Despachou-se a fazer os trabalhos de casa, lanchou e foi consultar a Enciclopédia lá de casa.
A Mãe, quando o viu de livro na mão sentado no sofá, espantou-se.
- Zeca, meu filho? Estás doente? A consultares um volume da enciclopédia, em vez de procurares na Internet?
- Mãe – Disse o Teclas – Isto é um caso de vida ou de morte!
A Mãe, como já lhe conhecia as manhas, nem respondeu. Virou costas e continuou o seu trabalho.
O Teclas leu, releu, consultou outros livros e, claro está, a sua internet.
À hora do jantar, o Teclas continuava agarrado ao computador, e só despertou quando o pai foi ao pé dele para o chamar para jantar e, ao mesmo tempo, aproveitar para ver o que o filho há tanto tempo fazia na Internet.
O pai era muito cauteloso com a Internet, sobretudo na idade que o filho atravessava. É que a Internet tem coisas boas e coisas más. Nunca era demais dar uma vista de olhos aos sítios por onde o Teclas andava e com quem falava lá no MSN.
Quando o pai viu que ele andava a pesquisar sites filatélicos, ficou espantado, mas não disse nada.
Chamou o filho para jantarem, e, quando estavam todos à mesa, o pai inquiriu:
- Então Zeca? Tens uma nova paixão?
- Eu? Porquê?
- Vais dedicar-te à Filatelia?
- Fiquei só curioso. É que ontem quando estava a pesquisar para o meu trabalho de História, apareceu-me uma página a falar dessa cena.
- Não é “cena”. Chama as coisas pelo nome. – Retorquiu a Mãe.
- “Tá bem” Mãe.
- Ó Zeca, pá! Fala português! – Exclamou o Pai.
- Ok! Mas vocês conhecem alguém que colecione selos?
Mas poquê esse interesse tão repentino? – Interrogou o Pai.
- É que lá na escola hoje, gozaram comigo quando contei o que tinha descoberto e quero-lhes dar uma lição de cultura.
- Hum! Estou a gostar de ouvir! – Exclamou a Mãe – Por isso andaste quase a tarde toda a consultar enciclopédias e a internet.
- Foi – Disse o Teclas.
- Bem, acho que tenho a solução para o teu problema. – Disse o Pai – Lá em casa do teu Avô, há uma grande colecção de selos feita por ele. Ninguém melhor do que ele para te explicar todo o processo por que passa o selo, a sua história, e mais! Pode ser que te venhas a interessar por esse hobbie tão cultural!
- Ó Pai, a sério? Não sabia que o Avô era coleccionador!
- Era eu da tua idade, e já ele coleccionava selos!
- Podemos lá ir no fim-de-semana?
- Claro!
Naquela manhã de Sábado, o Teclas e os seus pais, saíram de casa na zona da Mealhada até à Figueira da Foz onde moravam os avós do Teclas.
De cabelo espetado e louro, óculos redondos naquele semblante esguio, o Teclas, no seu corpo magro, vestia uma T-shirt preta com uma caveira na frente, umas calças de ganga coçadas e rasgadas e umas sapatilhas Adidas.
Munido do seu telemóvel, amigo inseparável e do seu Mp4, assim que entrou no carro, ligou o aparelho ao rádio, fazendo ecoar o batuque no seu interior.
- É fixe esta música, não é? – Perguntou o Teclas aos Pais.
- Zeca! Desliga isso! É insuportável! – Exclamou o Pai.
O Teclas, resignado, lá desligou o seu Mp4 do rádio do carro e enfiou os fones nos ouvidos e fez a viagem dentro do seu pequeno mundo.
Chegados à Figueira, aproveitaram o bom tempo para irem até à praia. O Teclas estava desejoso de ir para os Avós, pois queria que o Avô lhe ensinasse tudo sobre os selos.
Ao serão, e já depois de estarem bem instalados na casa dos Avós, o Teclas contou ao Avô o que se tinha passado naquela semana e a sua curiosidade pela Filatelia.
- Bem, Zeca. Se queres de facto saber como nasceu a Filatelia no Mundo, tens muito que ouvir! – Disse o avô.
- “Tá-se” bem! Podes começar. Não me importo de apanhar seca.
- Mas que linguagem Zeca! – Retorquiu o Avô. – Bem vou então contar-te como tudo começou. A sua descoberta deve-se ao inglês Rowland Hill, que foi o grande reformador postal.
Contam que este homem estava de passagem por uma pousada escocesa, quando o carteiro entrou e entregou uma carta à estalajadeira. Ela disse que não podia ficar com ela por custar dois xelins e ser pobre.
Ao ouvir isto, Rowland Hill, pagou os dois xelins ao carteiro, o que a mulher agradeceu, dizendo que tinha empregue mal o dinheiro, pois a carta era da família que vivia longe e, como cada um tinha escrito uma linha, e lhes conhecia a letra, sabia que estavam todos bem.
Hill pensou naquele caso e propôs uma taxa fixa e que os expeditores enviassem as suas cartas em pequenos envelopes que, com um bocadinho de cola a toda a volta, depois de humedecida, se aplicava. Mas esta ideia não foi bem aceite, achando o público aquilo ridículo. Os sacos foram então todos queimados, dando as pessoas valor só à etiqueta que os acompanhava.
Então, para ver o seu plano concretizado, Hill abriu um concurso entre artistas e homens da Ciência, tendo aparecido 2600 planos e 1000 desenhos. Como não ficou satisfeito com nenhum, esboçou ele mesmo um projecto com o perfil da Rainha Vitória tendo no topo a palavra Postage e em baixo a inscrição da taxa. Um gravador copiou o perfil da rainha e cunhou de uma medalha que já tinha sido feita em sua honra.
Era negro, e por isso se chamou Penny-Black e custava um dinheiro
Estava apresentado o primeiro selo do Mundo que circulou a partir de 1 de Maio de 1840. Estava também apresentado que viria a ser o mais potente sinal posto na mão de alguém.
O sucesso foi enorme em Inglaterra, que outros países lhe seguiram o exemplo. As máquinas não davam vazão perante tanta procura.
Presentemente calcula-se que em todo o Mundo circulem 50 biliões de selos. De entre eles, uns quatrocentos milhões não chegam aos serviços dos Coreios indo directamente para os álbuns dos coleccionadores.
- Que história bué da fixe! Então e como surgiram os selos portugueses?
- Os nossos selos surgiram uns anos mais tarde em 1852 e promulgados pela rainha D. Maria II. Mas só em Julho do ano seguinte saíu uma emissão de selos de D. Maria II idêntica à que tinha saído em Inglaterra – o mesmo perfil inspirado na rainha Vitória. O desenho foi confiado a um artista, Francisco Borba Freire, que segue os parâmetros combinadas e depois enviado para a gravação. Depois de feita e aprovada a gravura, é fabricada multiplicando assim as chapas da gravura em folhas de cinquenta ou cem unidades cada uma, sendo depois entregues à Casa da Moeda. O selo de D. Maria II não tem qualquer taxa, pois poderia circular em cartas de qualquer valor. Foi feita uma matriz muito maior do que o seu tamanho normal para ser retocada minuciosamente até ficar pronta. Exactamente como o Penny-Black.
- Amanhã conto-te mais sobre a Filatelia. Agora vou fazer companhia aos teus pais e à tua Avó, que daqui a pouco são horas de deitar.
Resignado, o Teclas, lá deixou o Avô ir ao encontro dos seus familiares. Viu um bocado de televisão, enviou e recebeu vários SMS e depois deitou-se.
Na manhã seguinte, o Teclas levantou-se por volta das onze horas. Foi o ultimo a levantar-se.
- Então rapaz? Adormeceste? – Perguntou o Avô – Olha que tenho umas coisas para te mostrar!
- O quê, Avô?
- Já não te lembras do nosso serão de ontem?
- Ya! Deixa-me só comer alguma coisa. “Tou” esfomeado!
- Quando estiveres pronto vai ter comigo ao escritório – disse o Avô.
Quando chegou perto do Avô, ficou admirado com tantas caixas, envelopes, folhas e álbuns repletos de selos.
- Isto que aqui vês é a minha colecção. Tenho aqui uma fortuna! Espero que alguém da família dê continuidade a isto.
- Fogo! Onde conseguiste tantos? Compraste?
- Alguns juntei, outros fui comprando até juntar aquilo que aqui vês.
- Que fixe! Como é que se começa uma cena dessas?
- Qual cena, Zeca?
- Essa de colecionar selos.
- Então não é cena nenhuma. É colecionar selos.
- Pronto! “Tá-se” bem!...
- Tu queres mesmo aprender a coleccionar? – Perguntou o Avô.
- Quero. “Sério” Avô.
- Então, vou-te ensinar como se começa uma colecção de selos.
Pacientemente, o Avô começou a explicar ao seu neto, como se iniciava uma colecção de selos.
- Primeiro, tens de ter uma ideia daquilo que pretendes coleccionar. Há quem coleccione só selos portugueses, há quem coleccione selos estrangeiros e quem coleccione temáticas.
- Os selos têm temas? – Perguntou o Teclas.
- Claro que sim! Podem-se fazer temas de animais, flora, barcos, automóveis... olha! O que tu quiseres!
- Altamentel! Achas que podia coleccionar carros? Adoro carros!
- Claro que sim. Mas primeiro tens de aprender como coleccionar.
- Então como é?
- Os selos podem ser coleccionados novos ou usados.
- Usados?
- Deixa-me explicar. Um selo novo é um selo que nunca circulou. Nunca foi posto numa carta e carimbado. Logo, tem mais valor. O selo usado é aquele que é comprado nos Correios, colado numa carta e enviado ao destinatário. É carimbado nos correios com uma marca do dia em que foi expedido. Expedido, quer dizer que saíu daquela estação dos CTT. Imagina. Eu resolvo escrever-te uma carta. Meto-a num sobrescrito ou envelope com a tua morada e o teu nome e coloco-lhe um selo. Ponho no marco do correio ou mesmo no Correio. Há hora da saída da correspondência, as cartas são todas carimbadas e seguem o seu destino.
E o Avô continua.
- Daí a dois dias, sensivelmente, tu recebes a minha carta em tua casa. Vês que o selo levou um carimbo. Circulou. É um selo usado. Portanto, a diferença entre um selo novo e um selo usado é que um circulou (de minha casa aqui na Figueira) para a tua lá para os lados da Mealhada. Esta é a primeira noção que deves reter sobre um selo usado e um selo novo.
- Porquê? Há mais?
- Há. Repara...
O Avô do Teclas percorre minuciosamente a sua colecção à procura de algo. O Teclas nem ousa perturbar o raciocínio silencioso do seu Avô.
- Ora aqui está o que procurava! – Exclama o Avô todo satisfeito.
- Vês estes dois selos?
- Ya.
- Que diferenças encontras?
O Teclas aproxima-se mais da secretária do Avô, debruçando-se para examinar bem as diferenças através dos seus óculos redondos.
- Hum... nada de especial!
- Ora vê bem – insistiu o Avô.
- São iguais, mas um tem uns riscos arredondados!
- Ora vês? E o que é que isso quer dizer?
- Sei lá! Não percebo nada disso! – Exclamou o Teclas.
- E isso quer dizer o quê?
- É aquela cena do novo e do usado?
- Exactamente. Mas sabes dizer qual é um e qual é o outro?
O Teclas coça a cabeça e franze o sobrolho.
- Coleccionar selos é complicado, já estou a ver!
- Não sejas preguiçoso, rapaz! Ora pensa um bocadinho naquela história que te acabei de contar.
- Olha, o que não tem nada deve ser novo e o outro é usado. É isso?
- Ah grande Zeca! Muito bem! – Exclamou o Avô – Então agora vamos ver quais são as outras diferenças entre eles.
- Um selo novo, tal como te disse nunca foi usado e tem por trás uma película de goma que depois de humedecida se cola ao sobrescrito.
- O meu Pai e a minha Mãe lambem-nos! – Exclama o Teclas dando gargalhadas.
- Há quem faça isso, há quem ponha um pouco de saliva no dedo e há quem ponha cola. Mas vamos ao que interessa.
O Teclas continuava a rir.
Pacientemente, o Avô esperou que ele parasse de rir para continuar a falar.
- Já riu tudo, o menino?
- Desculpa Avô. Mas a cena de lamber os selos deve ser saboroso – disse o Teclas ainda com mais gargalhadas.
- Não levas nada a sério. Aprende alguma coisa além dos telemóveis e dos computadores! – Disse o Avô com um ar já carrancudo.
- Eu estou a levar a sério e quero aprender. Mas fizeste-me rir ao falar na colagem dos selos.
- Vá lá! Acalma-te lá.
Depois de recomposto, o Teclas continuou a ouvir atentamente o que o Avô lhe dizia.
- Como eu estava a dizer, o selo é humedecido e colado no envelope. É carimbado lá nos Correios e segue o seu destino até à morada do seu receptor. Deixa de ser novo, para passar a ser um selo usado. Imaginemos agora que a pessoa que recebeu a carta em casa, era coleccioadora de selos. Essa pessoa abria o envelope, retirava a carta e, com uma tesoura, recortava o papel do envelope à volta do selo sem o danificar.
- Hum... interessante!
- Depois de ter vários selos nesta situação, o coleccionador pega num recipiente com água morna e coloca lá os selos para que se descolem sózinhos do papel. Depois de descolados, são limpos levemente com a ponta dos dedos para retirar o excesso de goma e postos a escorrer à borda do recipiente. Seguidamente, são colocados num papel mata-borrão, difícil hoje de encontrar, para ficarem bem secos. O seu aspecto depois de secos é meio enrolado. Então, colocam-se dentro de um livro grosso, uma lista telefónica por exemplo, até ficarem direitos. Passados uns dias, são retirados e passam por outro processo que te explico depois do almoço.
- Isto é altamente, Avô!
- É quê?
- Giro!
O Teclas estava entusiasmadíssimo com as explicações do Avô, e durante o almoço fartou-se de lhe fazer perguntas.
- Então, Zeca? Perguntou o Pai – Aprendeste muito esta manhã?
- Claro! O Avô é um fixolas! Acho que vou colecionar selos de automóveis.
- E já tens ideia como isso se faz? – Perguntou a Mãe.
- Mais ou menos. Mas o Avô vai-me ensinar. Não vais Avô?
- Claro que sim. – Disse o Avô sorrindo.
- Tens é de ter bem ciente aquilo que pretendes coleccionar e como. A partir daí, é usares a imaginação – continuou o Avô.
Depois do almoço, decidiram ir passear. O tempo convidava para um passeio à beira-mar, ao longo da Marginal.
O Teclas disse logo que não queria ir. Preferia ficar em casa com o Avô a aprender mais alguma coisa sobre a Filatelia, pois não se tinha esquecido de como tinha sido humilhado pelos colegas.
- Zeca! Vais obrigar o teu Avô a ficar em casa? – Retorquiu a Mãe.
- Deixa lá. Por acaso tenho que fazer. Tenho de organizar uma exposição. Se o Zeca quizer ficar, eu não me importo.
- Vais fazer uma exposição sobre quê, Avô?
- Sobre a história do selo português.
- Lá vou eu aprender mais umas coisas, não é?
- Se de facto queres ser filatelista a sério, tens de aprender!
- Ok, malta! Eu fico em casa com o Avô!
Os Pais e a Avó aprontaram-se e foram passear. O Teclas e o Avô, ficaram em casa, fechados no escritório, tendo como pano de fundo uma imensidão de caixas, classificadores, envelopes, selos espalhados pela secretária, que o avô estava a preparar para a sua exposição daí a uma semana.
- Tão velhinhos, estes selos! – Disse o Teclas.
- Mais velhos do que tu e do que eu, acreditas?
- Do que tu?
- Claro! Não te disse que o primeiro selo português datava de 1852?
- Ya. Tens de dar um desconto! Mas conta lá como apareceu cá essa cena do selo em Portugal.
- Foi em 1852 como já te disse. Mas um pouco de História não te fica nada mal saber. Sabes quem foi D. Maria II?
-Não.
- D. Maria II “nasceu num domingo de Ramos a quatro de Abril de 1819 em terras brasileiras. Seus pais, rei D. Pedro IV e sua mulher a arquiduquesa Leopoldina de Áustria, tiveram a sua primeira filha no Palácio da Boavista. Ali vivia a família real fugindo aos Franceses que tinham invadido o reino. (…) Não teve na pia baptismal mais do que um nome pomposo e um título, como se impunha à sua condição de futura rainha – Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Rafaela Gonzaga, princesa da Beira e do Grão-Pará(…).
Na quinta de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, Maria da Glória vai ter uma infância despreocupada e feliz, educada e muito amada pelas camareiras do palácio e pelos pais. Aos 7 anos, essa alegria é interrompida abruptamente com a morte da mãe. O pai será o seu grande amigo e protector (…). Estava-se no ano de 1822 e a nossa princesa contava com dois anos e meio quando nas margens do rio Ipiranga se dá o grito da independência do Brasil. Em Portugal morre entretanto D. João VI e seu filho, D. Pedro IV, residente no Brasil, vai ter de optar entre ser imperador do Brasil ou rei de Portugal.
Escolhe o Brasil e, em 1826, abdica do trono de Portugal, em nome da filha Maria, apenas com sete anos (…). Esta menina começa a pouco e pouco a aperceber que vai deixar de ser criança e que o seu destino lhe vai impor uma conduta diferente da das outras meninas da sua idade. Aos nove anos é mandada para a corte de Viena para ser educada pela avó materna, mulher de Francisco I(…).
Tem 15 anos quando sobe ao trono D. Maria II, 29º monarca português e a segunda rainha reinante da nossa História (…). O seu primeiro ministério, presidido pelo duque de Palmela, encontra a oposição das Câmaras. Mas, por agora e por motivos políticos, é prioritário que a rainha se case e dê um herdeiro ao País.
Às rainhas de Portugal estava vedado o casamento com estrangeiros e mesmo na Carta Constitucional de 1836 esse preceito ficara expresso. As Câmaras tiveram, pois, de reunir para autorizar que a rainha pudesse casar com um estrangeiro.
Dos diversos noivos que lhe estavam destinados, a madrasta vai-lhe escolher o seu próprio irmão. Fica decidido o casamento com Augusto de Leuchtenberg, neto de Maximiano da Baviera.
(…) O noivo morre dois meses depois. Ainda mal refeita do acontecimento, decidem casá-la de novo com Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro Governo Constitucional (…).
Temos de admirar esta rainha que consegue manter a cabeça fria, com um povo em pé de guerra permanente e em casa com uma prole numerosa para educar.
Nos seus 19 anos de reinado, soube sempre ser rainha e mãe ao mesmo tempo, pois, em todas as crises políticas que o país atravessou, estava sempre D. Maria à espera de um filho e as obrigações como governante nunca foram descuradas por esse motivo (…). Se não tivesse sido uma rainha de pulso, não teria acabado o seu reinado já sem guerras civis e proporcionando aos seus filhos que foram reis, reinados com uma certa estabilidade (…).
No seu reinado, apesar das vicissitudes por que passou, houve tempo para o progresso. Em 1835, já fora estabelecido o ensino primário gratuito. Em 1836, por acção de Sá da Bandeira, é decretado o fim do tráfico de escravos nas colónias portuguesas a sul do Equador. O primeiro selo postal a circular em Portugal tinha a sua efígie em branco, moedas de ouro, prata e as primeiras de cobre (…).
A rainha tinha paixão pelo teatro, gosto esse que lhe ficara dos tempos vividos na corte de França.
Vai empenhar-se, apoiada por Garrett, para que se construa um teatro que será edificado no Rossio sobre as ruínas do Palácio da Inquisição – O teatro D. Maria II, segundo projecto de Fortunato Lodi. As obras vão decorrer entre 1842 e 1846. O tecto tinha pinturas de Columbano Bordalo Pinheiro que foram destruídas no incêndio de 1964 (…).
Em 1838, vai comprar o antigo convento dos monges de S. Jerónimo. O palácio começou a ser edificado em 1844. É o mais belo exemplar da arte romântica do nosso país (…).
Infelizmente D. Maria II não pode desfrutar muito deste local maravilhoso, visto que vem a morrer de parto a 15 de Novembro de 1853 (…).”
Nunca Rowland Hill pensou que a sua invenção corresse o mundo e tivesse tantos adeptos!
Por outro lado, o selo português - além de abordar os temas mais diversos, também é um múltiplo de arte, altamente apreciado em todo o mundo, designadamente por filatelistas dos quatro cantos do globo.
- Eia Avô! Tu sabes muita coisa! Onde aprendeste essa história toda da D. Maria?
- Sabes, Zeca. Devemos saber sempre um pouco de tudo. Como diz o ditado, “o saber não ocupa lugar”. E tu devias seguir este exemplo.
- Pois…
Os Pais e a Avó do Teclas chegaram entretanto e foi tempo para um breve lanche, as despedidas e o regresso a casa.
No dia seguinte era dia de trabalho.